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Mas à medida que os anos passavam e que o interesse por ela aumentava, os apelidos tornavam-se desnecessários e ela foi-se tornando apenas Snu. O casamento que a traria a Portugal acrescentou-lhe o apelido Abecassis. Todos eles procurando iluminar a história dessa mulher que os portugueses diziam ser sueca, mas que, na verdade, nascera na Dinamarca.
Lisboa tão, tão italiana
- A mãe dizia que ela achava que tinha uma missão.
- Por Snu, Sá Carneiro abandonou um casamento ultra conservador (não conseguindo nunca o divórcio).
- Em Portugal, Snu vai sempre sentir falta desse ambiente de floresta encantada que rodeava os frescos verões na casa de Uttervik, à beira do Báltico.
Um mundo que tem o seu epicentro na grande casa de família – a mansão Manilla, em Estocolmo –, local de encontro de escritores, de banqueiros, de empresários e de artistas. Curiosamente, ela que editou livros sobre a revolta dos jovens parece esperar que as suas crianças cresçam sem crises e revoltas nesse mundo ordenado e luminoso concebido por si, onde há horas para o beijinho da manhã e o beijinho da noite e o espaço-tempo das crianças não se imiscui na vida dos adultos. O Francisco Sá Carneiro, filho, cortou com a família da mãe quando escolheu viver com o pai e com Snu em Lisboa. Acabam por viver intensamente a vida do pai e da mãe, e depois vivem os dois. O que era natural na altura era manter as amantes e continuar com a vida política e as famílias.
PÚBLICO
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Mas a criação de uma editora é também o cordão umbilical que a liga ao mundo de onde veio e ao qual pertence. Um desses deveres-projeto para transformar o mundo que enquanto adolescente Snu inscrevia no seu diário. No início, Snu não falava português, nem conhecia o país. Na casa da Dom João V, Snu, Francisco Grande, Rebecca e Francisco Pequeno vão viver dias de ordem serena, uma espécie de rotina esclarecida. É com ela que Snu surge de forma mais descontraída no papel de mãe. Chega com três sofás de pele, quadros de Cesariny e muitos livros.
A vida privada de Snu tinha o fogo da paixão
Relata um episódio no livro que dá uma ideia do que eram os mundos de Snu e de Sá Carneiro quando se apaixonam. Depois de viver quatro anos na companhia da sua mãe, de Sá Carneiro e do filho dele, Francisco, foi viver para casa do seu pai. Enquanto estiveram casados, os meus pais já viviam para a política.
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Snu nunca se rebelou contra esta mãe que parece, como disse, um pouco intimidatória? Por um lado traz esse background da edição, e por outro lado chega a um país onde isso está por fazer. São pequenos livros que não são ficção, que vão buscar artigos à imprensa internacional. Os Cadernos da Dom Quixote são um pouco os livros da Penguin Books. Também é na edição, e não na escrita – e o pai era jornalista – que Snu acaba por se afirmar.
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Mesmo sabendo que a sua carreira política poderia ficar ameaçada, Sá Carneiro não desarmou nunca, chegando a dizer inclusive em 1977 que «se a situação for considerada incompatível com as minhas funções, escolherei a mulher que amo». A «Princesa que veio do frio», como se referiam a ela, era uma mulher obstinada, forte e cheia de vida. Este livro, em particular, será para os meus filhos, sobrinhos e futuros descendentes um documento fundamental para compreenderem quem foi Snu Abecassis e o que tentou fazer para tornar Portugal num país melhor. Juntamente com Francisco, foi viver para casa do pai, onde ficou até completar o liceu. (O meu pai estava a fazer obras em casa, para acolher os dois.) Temos uma ligação muito forte.
Também o homem com quem Snu vem a casar, Vasco Abecassis, é judeu. Os pais estavam altamente envolvidos na Resistência dinamarquesa. Essa preocupação era, sobretudo, por via do catolicismo e do cuidado com o outro, e menos uma preocupação política?
A atividade editorial vai levar Snu a confrontar-se com Portugal. Faz contratos escritos aos autores, arrisca editar desconhecidos e não olha a questões políticas na hora de escolher aqueles que vão trabalhar consigo. No seu apartamento da Rua Dom João V e na Dom Quixote, Snu interpreta esse mundo na escala e nas circunstância de Portugal. A casa onde Camus foi jantar depois de ter recebido o prémio Nobel. O mundo onde pontua o padrasto, Tor Bonnier, um dos grandes editores do norte da Europa.
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Rebecca Abecassis’ Post
Muitos dos laureados com o Nobel eram editados por ele, lançava-os em várias zonas do mundo. O pai de Tor, o padrasto de Snu, é o editor de August Strindberg. Como é que um país se podia dar ao luxo de não ter investigado para chegar a uma conclusão? O facto de nunca se ter esclarecido se Camarate foi atentado ou acidente, para a mãe era uma questão inacreditável. Era uma mulher com uma personalidade muito forte, quase intimidatória.
